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O Problema Quântico do Bitcoin: Uma Crise de Governança Disfarçada

Desenvolvedores propõem soluções para ameaças quânticas ao Bitcoin.

Jornal Cripto3 min de leitura
O Problema Quântico do Bitcoin: Uma Crise de Governança Disfarçada
Foto: reprodução

Desenvolvedores de Bitcoin estão cientes das ameaças trazidas pela computação quântica e já propuseram soluções, porém, a questão mais complicada é se a comunidade conseguirá chegar a um consenso a tempo. Segundo Guillaume Girard, um associado de investimentos da UTXO Management, a verdadeira ameaça quântica ao Bitcoin não é apenas um problema técnico, mas sim uma questão política que exige atenção imediata. Ele discute esses pontos em um artigo intitulado "Bitcoin e a Ameaça Quântica: Um Guia Não Técnico".

Atualmente, a segurança do Bitcoin se baseia na criptografia de curva elíptica, a qual protege as chaves privadas que controlam o acesso às carteiras. A emergência de um computador quântico suficientemente poderoso, utilizando o algoritmo de Shor, poderia possibilitar a derivação de uma chave privada a partir de uma chave pública exposta, resultando em roubos em larga escala. Em março, a equipe de IA Quântica do Google publicou uma pesquisa que sugere que máquinas com menos de 500.000 qubits físicos, muito abaixo das estimativas anteriores de 10 milhões, poderiam quebrar essa criptografia. O próprio Google definiu 2029 como o alvo interno para estar pronto para a era pós-quântica.

Atualmente, cerca de 1,7 milhão de BTC estão armazenados em endereços legados Pay-to-Public-Key (P2PK), que têm suas chaves públicas permanentemente expostas na blockchain, tornando-os alvos mais vulneráveis. Para mitigar esse risco, a Proposta de Melhoria do Bitcoin 360 (BIP-360), desenvolvida por Hunter Beast, introduz um novo tipo de saída chamado Pay-to-Merkle-Root (P2MR), que elimina a exposição da chave pública nas transações padrão. Essa proposta já foi integrada ao repositório de desenvolvimento do Bitcoin e está passando por revisão ativa.

Outra proposta complementar, chamada BIP-361, desenvolvida por Jameson Lopp, traça um plano de migração em três fases para afastar-se de esquemas de assinatura vulneráveis. No entanto, a Fase B desse plano pode resultar em moedas sendo congeladas em carteiras que não migrarem dentro de um prazo de cinco anos. Existe também uma proposta chamada Hourglass, que permitiria que atacantes quânticos movimentassem moedas roubadas apenas em lotes limitados — possivelmente uma BTC por bloco — diminuindo os danos econômicos e transferindo a receita das taxas para os mineradores.

O problema mais complicado reside nas moedas que não podem migrar: carteiras perdidas, detentores inativos e cerca de 1,1 milhão de BTC atribuídos a Satoshi Nakamoto. Girard aponta duas soluções candidatas, ambas com sérias desvantagens. A primeira envolvia queimar as moedas em endereços vulneráveis após um prazo, uma solução eficaz, mas que críticos afirmam que estabelece um perigoso precedente de censura para um protocolo que se baseia na neutralidade. A segunda, Hourglass, aceita que os roubos vão acontecer, mas restringe o fluxo de moedas roubadas para mitigar o impacto no preço e a disrupção do mercado.

Ambas as opções não são ideais e requerem algo fundamental: um amplo consenso social entre usuários, mineradores, desenvolvedores e, pela primeira vez, grandes instituições financeiras como a BlackRock. Já existem reações institucionais a essa problemática. A Jefferies, por exemplo, retirou sua alocação de 10% em Bitcoin de seu portfólio de previdência em janeiro de 2026, com o estrategista de ações globais Christopher Wood citando o risco quântico como uma ameaça potencial de longo prazo à fundação criptográfica do Bitcoin.

Michael Saylor, da Strategy, anunciou um Programa de Segurança do Bitcoin para coordenar com a comunidade de segurança mais ampla sobre a preparação para a computação quântica, posicionando a questão como um desafio de engenharia em vez de uma emergência. A equipe de cibersegurança do Citi colocou um preço de trilhões de dólares sobre a ameaça quântica ao setor cripto de maneira geral. A conclusão de Girard é ponderada: a verdadeira disputa está entre o cronograma para a criação de um computador quântico relevante do ponto de vista criptográfico e as decisões que a comunidade do Bitcoin tomará para se proteger contra essa ameaça iminente.

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